terça-feira, 1 de agosto de 2017

Preparação psicológica para o plano Canadá

A preparação psicológica é indispensável para qualquer indivíduo que almeja mudar (v.t. pôr em outro lugar, deslocar, alterar, modificar, transformar), em especial àqueles que buscam vivenciar uma outra rotina e estilo de vida, adaptar-se a hábitos e culturas diferentes.
Para desenvolver melhor esse tema, convidei minha amiga graduada em psicologia Maria Lua A. Vieira para auxiliar na publicação do post. Vamos lá!

Vida Canadá: Quão importante é a preparação psicológica no período anterior à emigração?

Maria Vieira: Em se tratando de aspectos psicológicos, sabemos que eles são subjetivos, e que a forma de sentir e perceber é diferente para cada indivíduo. Existem centenas de emoções, acompanhadas de suas combinações, variações, mutações e matizes. Segundo Goleman (1998) emoção é qualquer agitação ou perturbação da mente, sentimento, paixão; qualquer estado mental veemente ou excitado.
Existem mais sutilezas de emoções do que as palavras que temos para defini-las, mas provavelmente aquele que ignora os aspectos psicológicos dificilmente conseguirá desenvolver a capacidade de ter resiliência para enfrentar os desafios de emigrar para um local tão distante.

Vida Canadá: Quais aspectos devemos levar em conta na hora de optar pela emigração?

Maria Vieira: A preparação psicológica e o planejamento para execução do Plano Canadá são imprescindíveis, e ambos devem ser trabalhados simultaneamente. No entanto, para elucidar melhor cada um desses campos, dividirei a resposta em duas partes.
Quando tomamos a grande decisão de emigrar para outro país, o primeiro passo a ser dado é a elaboração de um planejamento, de forma a visualizar o caminho a ser percorrido para alcançar o objetivo final. Neste momento, devemos ter em mente que a emigração é, de maneira geral, um processo longo e burocrático. Logo, a criação de uma lista de tarefas a ser seguida, uma de cada vez, pode ajudar no controle da ansiedade e propiciará uma maior organização na coleta documental.
Levando em consideração unicamente o fator psicológico, é interessante fazer uma autoanálise: “Quais são as minhas habilidades e competências para mudar de país? Como eu posso lidar com a experiência de ficar longe da família? Quais são os meus objetivos ao chegar no meu destino? Quão bem eu lidarei com as frustrações que surgirão no novo país?”. Esse simples exercício vai ajudar no desenvolvimento do pensamento socrático, técnica que permite a realização de uma reflexão profunda através de um diálogo consigo mesmo. 
Uma vez feita a autoanálise, visualize quais são as habilidades e as competências que você já possui e quais você precisa melhorar para alcançar seus objetivos. Por exemplo:

Habilidades e Competências
1. Metódico com arrumação da casa;
2. Facilidade em se comunicar em inglês;
3. Facilidade em fazer novos amigos;
(...)

Pontos a melhorar
1. Aprender a cozinhar;
2. Ser mais econômico;
3. Aprender a me virar sozinho;
(...)

Apesar de simples, esse exercício permite racionalizar o pensamento, trazendo à tona quais ferramentas merecerão maior atenção no processo de mudança para outro país.

Vida Canadá: Você poderia falar um pouco mais sobre como lidar com o afastamento da família?

Maria Vieira: Existem pessoas que possuem uma capacidade maior de se adaptar em outros lugares e conviver com o afastamento da família. Entretanto, existem aquelas que nunca moraram longe da família e podem não saber lidar com essa experiência. As pessoas que possuem a capacidade de adaptar-se em outro lugar longe da família desenvolvem uma habilidade que chamamos de “desprendimento familiar”.
E o que seria desprendimento familiar? É um processo que começa a ser construído fora da zona de conforto de cada indivíduo e dentro do contexto familiar. Neste ambiente, o(a) filho(a) tem o desejo e a autonomia para realizar seus sonhos, e a família tem a sensação de ter o cordão umbilical cortado ao visualizá-lo(a) partindo em busca dos seus objetivos.
Quando os envolvidos conseguem elaborar essa vivência da melhor forma possível, mais acolhidos o(a) filho(a) se sente, e maiores serão as chances de concretizar o projeto de vida almejado. Porém, quando há dificuldade e resistência para lidar com esse afastamento, é interessante rever suas possibilidades e seus objetivos e, se for o caso, procurar ajuda de um profissional para trabalhar a capacidade de ter resiliência e conhecer a si mesmo. 

Vida Canadá: Muitas pessoas acreditam que a emigração resolverá todos os seus problemas, e que a vida “no primeiro mundo” é como nos filmes. Como controlar as expectativas?

Maria Vieira: Inicio falando sobre a idealização que é construída através da ideia de morar em outro lugar/país. Muito cuidado no momento de criar as idealizações porque isso aumenta as expectativas. Por mais que exista essa legenda de “país de primeiro mundo”, ele permanece sendo real, com cultura diferente, e constituído de pessoas que não possuem o mesmo estilo de vida, hábitos e referências de vida. Então, é recomendado pesquisar e saber o máximo de informação sobre o país que você pretende morar. E digo mais: converse com pessoas que passaram por esse processo de emigração, tire dúvidas e deixe a sua família e amigos fazerem parte desse processo para ajudar na elaboração da sensação de desamparo após a chegada em um outro país. 
Vale ressaltar que a sensação de desamparo não é vivenciada somente na infância, naquelas situações nas quais uma criança se sente abandonada diante da presença ou da falta de atitude de seus pais. A sensação de desamparo pode ser vivenciada também na fase adulta, quando o indivíduo passa a sentir a dor de viver um momento e não ter ajuda e apoio emocional. Por fim, a sensação de desamparo pode causar sentimentos desagradáveis como tristeza, desilusão, angústia, além de esgotamento psicológico, dúvidas, entre tantos outros.

Vida Canadá: Muitos brasileiros pretendem largar carreiras supostamente promissoras no Brasil em busca de uma nova vida no Canadá. É comum sentir dúvida quanto à decisão no meio do caminho?

Maria Vieira: O caminho para “largar uma carreira promissora” a fim de seguir o que você almeja é feito de escolhas. Muitas vezes, a carreira somente é promissora do ponto de vista de outras pessoas – família, amigos, chefe, colegas de trabalho. Logo, se essa carreira não te faz bem e não transmite a sensação de autorrealização, é interessante pensar em outras possibilidades.
No primeiro momento, é natural que a família não aceite, em especial por não entender as questões que levam alguém a tomar essa decisão. Comentários como: “você tá louca(o)?” e “vai ter coragem de deixar tudo para viver sem saber como vai ser o dia de amanhã?!” são extremamente corriqueiros. Quando você passa por um período de reflexão e tem certeza da sua decisão, é mais fácil lidar com qualquer tipo de questionamento não construtivo.
Quando você traça um objetivo e tem o foco de chegar até o final, as dúvidas não vão ser um problema e sim uma reflexão. Porém, quando as dúvidas pesam mais que a própria decisão de mudar para outro país, é natural que o indivíduo desista de colocar em prática o plano Canadá. 
É esperado que, ao longo do processo da execução do plano Canadá, dúvidas surjam. Simplesmente faz parte da nossa natureza. Quantas e quantas vezes paramos nas nossas vidas para refletir sobre coisas como o rumo que tomamos nas nossas vidas, e se somos, de fato, capazes de “deixar tudo para trás e iniciar do zero”.
O que seria “iniciar do zero”, afinal de contas? Será que todas as nossas experiências passadas não servirão de base para o que nos aguarda em outro país? É óbvio que sim. Noto, então, que a sensação de “começar do zero” refere-se muito mais a questões financeiras e profissionais do que a vida como um todo mesmo.

Vida Canadá: Mais alguma sugestão?

Maria Vieira: A sugestão é que os leitores enviem suas dúvidas, relatos e experiências nos comentários e posteriormente podemos falar sobre cada item. Agradeço o convite e me coloco à disposição. 


2 comentários:

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