sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sobre insetos e empecilhos imaginários

Quando eu tinha nove anos de idade, eu era proprietária de uma grande fazendinha de insetos. Exibia orgulhosa o meu criadouro de aranhas, baratas, escorpiões e vários outros artrópodes que a fauna brasileira me proporcionava. Eu os organizava em pequenos aquários e caixas, dedicando todo o meu tempo livre ao projeto.

Como toda boa criança do final dos anos 90, nomeei as minhas baratas em homenagem aos jogadores da seleção brasileira. Eu as deixava ora separadas em compartimentos individuais, ora acompanhadas de outras baratas futebolísticas – afinal de contas, ninguém gosta de passar tanto tempo sozinho.

Para a minha surpresa, muitos desses encontros casuais resultavam em filhotes de baratas – o que me forçava a trocar a etiqueta identificadora com o nome “Bebeto” para “Bebeta” (ou “Romária”, vai saber). Eu me satisfazia por completo em observar como as coisas aconteciam, e não me incomodava de ler por horas a fio sobre o mesmo assunto.

OMG FILHOTINHOS!

Poucos meses depois, eu tive um problema sério de saúde e precisei doar minha coleção para um amigo. Foi um sufoco: meus pais viajaram comigo às pressas para outro Estado e lá mesmo eu fui operada. Por sorte, deu tudo certo, e algumas semanas depois eu estava de volta.

No entanto, já não era a mesma coisa. Como eu precisei me afastar do colégio por um tempo, foi necessário que eu compensasse as lições escolares perdidas ainda em casa. Eu sempre gostei muito de estudar, então aquilo não era um problema para mim. Porém, quando eu olho para trás, me pergunto se não foi a partir daquele momento que as coisas começaram a mudar.


Os últimos vinte anos passaram como um sopro. Eu cresci, o meu amigo dos insetos também cresceu e Bebeta há muito está in memoriam. O tempo passou tão rápido, e nós crescemos tão ligeiro que, inclusive, perdemos o direito de usar a palavra “crescer” – agora, só nos resta envelhecer.

Ao mesmo tempo que nascemos com a certeza de que vamos morrer, nos acostumamos a viver assombrados com a ideia de envelhecer. Aos poucos, começamos a pisar no freio e dizer a nós mesmos que estamos “velhos demais”. Apesar de não existir nenhum critério objetivo, conseguimos nos convencer cegamente de que existe essa linha imaginária tracejada que, uma vez ultrapassada, não há mais volta. É tarde demais.

Já do outro lado dessa linha, vamos nos tornando cada vez menos espontâneos. Para que iniciar aquela aula de krav magá se você matricular naquela academia baratinha perto de casa, não é mesmo? Ela é tão mais segura, tão mais conveniente, tão mais prática – tão mais entendiante e tão mais absolutamente péssima.

Estamos tão habituados a viver no modo automático que conseguimos acreditar que a vida tem que ter esse eterno tom pastel. Com pequenas doses diárias de mediocridade, vamos nos embriagando e nos conformando que as coisas têm que ser assim mesmo.

Quando temos breves momentos de lucidez e conseguimos ver relances do que deixamos do outro lado do “tarde demais”, o inconsciente vai lá e nos puxa de volta. O nosso alarme autossabotador é acionado, e imediatamente todos os pensamentos que gorjeavam voltam para as suas gaiolas. Nossa mente volta ao silêncio, e voltamos ao modo automático.


Vinte anos se passaram. Dez anos de escola, cinco de faculdade, dois de especialização e três de trabalho. Vintes anos se passaram, eu envelheci e, até hoje, o meu projeto de maior sucesso foi executado no auge dos meus nove anos. E como bem lembrou Casimiro de Abreu, a aurora da minha vida e a minha infância querida os anos não trazem mais.

E que assim seja. Minha infância foi tão generosa comigo que, duas décadas depois, é a lembrança daquele momento que me despertou a coragem de recomeçar. Precisei percorrer todo esse caminho e vivenciar tudo que vivenciei até hoje para, enfim, apagar com meus pés a linha imaginária que me impedia de ser quem eu sei que eu posso ser.

Acho engraçado pensar quão mais benevolentes seríamos uns com outros se nunca parássemos de usar o verbo “crescer”. Penso que poderíamos, quem sabe, firmar um acordo silencioso, no qual trocaríamos o verbete “envelhecer” por “crescer” e, juntos, cresceríamos todos até o final das nossas vidas.


A você, seja lá quem for, desejo-lhe sorte.

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