terça-feira, 6 de junho de 2017

EPIFANIA

Epifania é definida como “uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência de algo”. A palavra também pode ser utilizada para ilustrar a realização de um sonho com difícil realização. Nos sentidos filosófico e literal, epifania é a palavra que descreve quando “alguém encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa”.

A ideia de ir para o Canadá surgiu assim, como quem não quer nada. Aliás, não posso mentir: surgiu após uma conversa específica com o meu cunhado, que se mudou em Novembro de 2016 para Vancouver com a minha irmã.

O famoso “Plano Canadá” veio para questionar todos os paradigmas que eu tinha em minha vida. Depois de me formar em um curso com o qual eu não me identificava, passar anos a fio estudando para um concurso pelo qual eu não me interessava de verdade… ele surgiu.


Três meses após a sua mudança para o Norte, meu cunhado retornou ao Brasil para uma visita breve. Fiz a pergunta que qualquer um faria: “e aí, como estão as coisas por lá?” (como se eles tivessem morando em Saturno).

Com muita clareza, ele me descreveu a sensação de morar em um lugar no qual as pessoas trabalham para viver, e não vivem para trabalhar. Um país onde se pode viver sem carro e sem grandes preocupações com violência. Um local onde os direitos humanos são, de fato, valorizados – e onde ninguém está muito preocupado se seu cabelo é rosa choque ou se você está de mãos dadas com alguém do mesmo sexo. Uma vida de simplicidade, menos amarrada, onde você pode chegar aos 30 anos sem obrigatoriamente ter que estar casada, com dois filhos e aguardando o apartamento (que você comprou na planta) ficar pronto.

Para uma pessoa que estava em função de trabalho por, no mínimo, 12 (d-o-z-e) horas por dia, pegando 160 km de estrada para ir e voltar e lidando com os crimes mais nefastos que a mente humana poderia inventar, aquelas palavras me tocaram.


Na foto: as palavras do meu cunhado sobre a vida que eu havia construído nos últimos 5 anos.

Não por eu pensar que o Canadá seria a solução de todos os problemas – não, pensar assim seria fácil demais. Aquela descrição caiu como um balde de água fria em minha cabeça, e me levou a um desses momentos que você pensa: “Que m… eu estou fazendo da minha vida?”.



Lembro que eu estava sentada na varanda de minha casa com ele, e a sensação que eu tinha era que ele estava explicando nada mais, nada menos, que o óbvio. Passei, então, a refletir sobre a rotina que eu levava e os planos que eu tinha traçado para os próximos anos.

Sou formada em Direito e trabalho no Poder Judiciário. Depois de três anos trabalhando em cidades do interior e morando na capital, calculei que eu havia percorrido o suficiente para dar duas voltas e meia no Planeta Terra (de verdade). Notei que a regra era entrar no trabalho pela manhã e sair com o céu já escuro, restando tempo apenas para um jantar rápido e um banho.

Concluídas as tarefas, dizia eu, começava o meu “terceiro turno”: responder infinitas questões de concurso até o cérebro parar de funcionar e torcer para dar certo no dia da prova. Obviamente não dava, pois os meus concorrentes estudavam durante as minhas doze horas de dedicação ao trabalho. E olha, amigão: é difícil falar de meritocracia nessas condições.

“Ah, mas o sobrinho da amiga da minha vizinha trabalhava 20h por dia e conseguiu passar em 1o lugar no concurso de blá-blá-blá”. Sério, maravilhoso, que bom pra ele – mas não foi o meu caso. Para falar a verdade, sempre tive uma trava muito grande com concursos públicos em geral. Explico.

Passei os últimos três anos trabalhando como assessora de juiz. Com o passar do tempo, em especial quando se trabalha no interior, você se vê forçado a aprender muita coisa dos mais variados assuntos: da geladeira que quebrou e a garantia não quer cobrir; do pai que não quer pagar pensão alimentícia; da execução daquele imposto que você não pagou; e da explosão do banco da cidade por uma quadrilha de 12 assaltantes (true story).

Eu me atrevo a dizer que nessa minha curta experiência de 36 meses, eu vivi intensa e diretamente a realidade do Judiciário no interior do meu Estado. Minha admiração pelos meus colegas e pelos juízes com quem trabalhei só aumentou – afinal de contas, é trabalho demais e gente “de menos”.

Perdi as contas de quantas vezes tivemos que nos desdobrar para resolver a situação de alguém vulnerável, de quantas e quantas vezes tivemos que revirar os livros e a internet para solucionar os casos mais inusitados. “Nada além de sua obrigação”, você me diria. E eu até concordo. Tirando o número exorbitante, extenuante, exacerbante de horas extra para poder dar conta do serviço – eu concordo.

Pois bem. Depois de passar o dia inteiro nessa imersão no trabalho, eu pegava aqueles 5% de bateria que haviam restado para finalmente estudar para o meu concurso dos sonhos: a Magistratura.


No entanto, não funcionava. Eu não entendia como uma prova para um concurso tão grandioso como a Magistratura poderia escolher seus candidatos dentre aqueles que, por exemplo, tinham decorado as 29 competências privativas da União para legislar e que o crime de extorsão tem pena máxima de 10 anos, e não de 11.

Aquilo me deixava louca – não por eu me sentir mais merecedora do que qualquer um dos aprovados nesses concursos, mas por eu ter uma necessidade muito grande de entender as coisas e querer que elas façam sentido. E aquelas provas não faziam sentido: 90% do seu conteúdo, naquele formato que me era cobrado, estava a anos-luz do que era, de fato, usado no dia a dia do Judiciário. Eu via o que um juiz fazia diariamente, e não era aquilo. A conta não fechava.

 Uma coisa é certa: a jornada de concurso público não é para qualquer um. Ela é muito digna, e se levada a sério, com perseverança e com vontade, resultados excelentes serão colhidos. Porém, com o passar do tempo, eu vi que eu não tinha o necessário para seguir adiante. Isso começou a me fazer mal. Muito mal.

 Eu estava vivendo em função de um trabalho que me esgotava física e mentalmente, para estudar para uma prova que eu não conseguia entender, com a promessa de uma futura aprovação – que muito provavelmente não viria, se eu continuasse naquele ritmo. Em resumo: notei que eu estava gastando meus vinte e tantos anos com uma atividade que não me satisfazia por completo.



Depois daquela fatídica conversa com o meu cunhado, a sensação que eu tive foi de que ele abriu a portinhola do calabouço onde eu me escondia. Eu estava tão imersa, tão obstinada em insistir numa vida que não funcionava que eu simplesmente não conseguia enxergar que existiam, sim, outras possibilidades.

Eu não sei delimitar o exato momento que eu me distanciei tanto do que eu sou de verdade. Não sei em qual momento eu decidi tomar o rumo pelo Direito, não sei dizer em que momento eu achei que a vida de concurso público seria a melhor opção para mim. Eu acredito que foram pequenas decisões, ao longo do tempo, que formaram esse todo tão distorcido e que tão pouco reflete a minha verdadeira identidade.

Decidi fazer um blog para relatar aos poucos essa minha transição de vida para o Canadá, minha timeline atualizada do Express Entry, dicas e todos os passos dessa jornada. Espero também que essa experiência me aproxime de pessoas que já vivenciaram ou estejam vivenciando uma experiência semelhante, para que juntos possamos compartilhar e trocar informações! Deixem suas sugestões e comentários. Serão muito bem vindos. Até a próxima.




2 comentários:

  1. Olá! Me identifiquei muito com o seu relato! Eu e meu marido somos formados em Direito e odiamos o curso! Acho que fizemos por pressão da familia, aqueles elogios "vc é tão inteligente... vc gosta tanto de ler... vc fala tão bem em público..." ehaeuahuhaa aos 17 anos parecia verdade pq né? ai que bosta. Mas enfim, passei num concurso no fim da faculdade, também trabalho no Poder Judiciário e embora seja só técnica judiciária, foi a alegria da familia, tipo o deslumbre de uma carreira de sucesso, que ia culminar na magistratura ou sei lá onde! mas me sinto exatamente como você, impotente e cansada. Ccomecei a estudar para o concurso da PGE (comprei cursinho, livros, parafernália toda) e uns 2 meses depois doei tudo e decidi ir morar no Quebec! eeeee! Minha familia está bem contente! Principalmente porque planejamos nos mudar e levar conosco nossos 2 filhos! ehauehahhaha Estamos há 2 anos nessa vida de futuro imigrante, IELTS, TCF, pontos que valem, pontos que não valem mais, dólares, onde morar, o que fazer da vida e tal... não é fácil, mas vamos ver no que vai dar! Boa sorte pra nós! Bjos, Michelle

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  2. Pelo menos vocês foram elogiados hahaha eu não me lembro de nenhum elogio desse tipo! Eu amava química, biologia, física e fiz Direito. Explique aí essa lógica, pfv, porque não entendo até hoje onde DIABOS eu estava com a cabeça!

    Sobre isso de doar tudo, passei recentemente por essa experiência e foi tão libertador. Sério, tem algo de muito delicioso em não me deparar mais com meus livros de Direito dentro de casa!

    Quanto à minha família, sinto que ficaram felizes também. Diria que ficaram 85% felizes e 15% reticentes, porque acho que eu bati tanto na tecla desse Futuro Promissor de Concursos que é normal eles demorarem um pouco para naturalizar minha nova meta.

    Boa sorte pra nós! Mais cedo ou mais tarde, estaremos todos por lá :D Vamos nos falando! É animador ver mais gente no mesmo estágio.

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