quinta-feira, 8 de junho de 2017

A SAGA DO IELTS


Uma vez tomada a decisão de iniciar o meu Plano Canadá, e sendo uma candidata com um bom perfil para o Express Entry, decidi partir para a próxima etapa: a prova do IELTS (International English Language Testing System), mais especificamente na modalidade General Training.

O exame consiste de 4 partes:

  • Listening (40 questões);
  • Reading (40 questões);
  • Writing (2 textos);
  • Speaking (11-14 minutos de conversação – 3 partes);

Em regra, todas as quatro competências são testadas no mesmo dia, mas já ouvi relatos de pessoas que tiveram suas provas de Speaking em dias diferentes. A nota máxima que você pode atingir é 9, e não 10, como somos acostumados aqui no Brasil.

Imediatista que sou, decidi de pronto me inscrever para fazer a prova. Após consulta ao site do British Council (https://www.britishcouncil.org.br/), fiz minha inscrição pelo valor de R$ 800,00 (!!!) no dia 13 de Fevereiro de 2017.

Optei por fazer a prova em Recife/PE, convencida de que seria “mais próximo” da minha cidade. Foi a pior ideia de todos os tempos: passei 9 horas num ônibus (“porque queria economizar”), cheguei MEGA gripada, destruída, pior que Frodo ao chegar em Mordor. Acabei comprando uma passagem de volta de avião 1 hora depois da prova. 1ª dica: organize sua viagem direito + o barato sai caro.



O teste estava marcado para o dia 25 de Março de 2017, o que me dava uma margem de 1 mês e meio de estudos. Como estudo inglês desde os 11 anos de idade, não tive grandes dificuldades com a preparação para a prova – o que está muito longe de dizer que é uma prova fácil. A sensação de estudar para o IELTS é parecida com a sensação de estudar para um concurso ou vestibular. É chato? Um pouquinho.

Já que eu não tinha tanto tempo, decidi otimizar o meu estudo e contratar um professor particular para ter 4 aulas em toda segunda-feira do mês que antecedeu a prova. Eu estava um pouco temerosa sobre o que esperar da parte do Speaking, então nada melhor que alguém como experiência para me dar as dicas que eu precisava.

Apesar de meu professor ser um cara incrível, as aulas foram um tanto quanto atrapalhadas por motivos alheios à nossa vontade: houve remarcações por conta dos meus horários loucos no trabalho e a filhinha dele adoeceu no meio tempo. Aproveitei tanto quanto eu pude, e compensei com estudo das provas anteriores nos meus horários vagos e finais de semana.

Explicarei em detalhes minhas impressões sobre cada uma das partes da prova.

1) Listening: O Listening é dividido em 4 seções, com 10 questões cada: as duas primeiras seções são baseadas em situações sociais, como conversa por telefone ou inscrição numa faculdade; e as duas últimas trazem textos acadêmicos.

As duas primeiras seções costumam ser as mais tranquilas. As provas costumam ser muito repetitivas nas suas primeiras 20 questões, cobrando coisas como soletração, números, nomes e endereços. Recomendo que haja uma dedicação especial a essas seções, pois elas poderão representar o diferencial na sua prova.

As duas últimas seções são um pouco imprevisíveis, e têm o costume de trazer temas mais complexos. Por conta dessa imprevisibilidade, pode ser que você se depare com um texto sobre um tema com o qual você não tenha nenhuma intimidade. Eu, por exemplo, jamais me esquecerei de uma prova que eu respondi em casa que abordava o cultivo de bananas. Eu não sei absolutamente nada sobre o cultivo de bananas em português, que dirá em inglês!


Durante meus estudos, o Listening foi a parte que eu tive menos dificuldade. Sempre tive o hábito de ouvir músicas e assistir seriados em inglês, então optei por responder o máximo de questões possível e ouvir podcasts do Spotify no trânsito. Segui fielmente a orientação de minha irmã no sentido de fazer a prova do Listening por inteiro, sem pausar, para depois conferir o gabarito ao final. Acredito que esse foi o diferencial na minha nota, pois é necessário saber como você vai reagir se, no decorrer da prova, você se atrapalhar e perder informações.


Outra coisa a ser chamada atenção no IELTS é que a prova pode trazer sotaques de todos os lugares do mundo. Então a primeira seção pode ser em sotaque australiano, e as últimas três podem trazer sotaques tipicamente orientais. Eu não acho que chega a atrapalhar, de fato, a compreensão das questões, porém acho interessante mencionar que isso pode ocorrer em sua prova.

Dicas:
  • Se você tem um inglês básico/intermediário – Estude os métodos de cobrança da prova do IELTS, descubra as pegadinhas que se repetem e invista ao máximo em músicas, seriados, filmes e podcasts – seja lá o que funciona melhor para você. Eu acredito que não tem como treinar os ouvidos se não pararmos, de fato, para… ouvir. Meio óbvio, eu sei, mas não consigo vislumbrar outra saída;
  • Se você tem um inglês avançado – Além de entender o esqueleto da prova, tente acertar o máximo possível nas duas primeiras seções para que haja uma margem de segurança a ser utilizada nas duas últimas partes, se necessário for;


2) Reading: O teste do Reading leva cerca de 1 hora, iniciando-se logo após a prova do Listening. Em se tratando do IELTS – General Training, a prova será dividida em três seções, podendo conter um ou dois textos em cada uma delas. O grau de dificuldade tende a aumentar com passar das questões, então o maior desafio da prova será o controle do tempo despendido a cada um desses trechos.

A primeira parte da prova costuma trazer fatos do dia a dia, como informações sobre universidades ou algum tipo de serviço (restaurante, hotel, supermercado). A segunda parte tende a trazer um texto mais técnico, como treinamento de trabalho e problemas relacionados. A última parte é, definitivamente, a pior: vai trazer um texto sobre o assunto mais aleatório que você conseguir imaginar, com diversas informações minuciosas, e perguntar mínimos detalhes sobre cada uma delas. No total, a prova do Reading conterá 40 questões distribuídas entre as seções mencionadas.

Admito que eu subestimei o Reading. Confiei no meu hábito de leitura diária em inglês e na ideia de que conseguiria ler rápido o suficiente para cumprir o que era cobrado na prova. Entretanto, desprezei coisas importantes como o nervosismo da aplicação do certame, o fato de que o teste seria imediatamente depois do Listening e de que não haveria tempo para descansar.


As questões poderão variar muito nessa parte da prova, então é importante que você já esteja habituado(a). Vou citar as três modalidades que mais me marcaram, mas recomendo esse link para ver as demais:

  • True / False / Not Given – Yes / False / Not Given: Olha, gente, que coisa mais chata esse tipo de questão. Verdadeiro e Falso? Beleza! Desde os 10 anos de idade estamos fazendo isso. Mas isso de Not Given é um pouco traiçoeiro, então você precisa parar DE VERDADE para entender a lógica. De maneira simplificada, “Yes / True” = a informação está no texto; “No / False” = o oposto da informação é encontrada no texto; “Not Given” = não existe aquela informação em canto nenhum do texto (nem da forma exata, nem da forma contrária);
  • Escolher “títulos” para parágrafos/seções: Consiste em escolher uma frase que “resuma” o conteúdo de determinado trecho. Tende a ser uma questão mais simples. O ideal é ir cortando os títulos já utilizados para não perder tempo lendo a lista por completo toda hora que precisar de um novo título;
  • Completar pequenos espaços com palavras-chave: Você vai ter que ler um texto e, logo abaixo, completar as palavras que estão faltando em uma pequena passagem. É aquela típica questão de cursinho de inglês, que vem o espacinho ____ para você completar;

Sobre o Reading, eu diria para não subestimar como eu fiz, achando que seria mais tranquilo do que foi. Diferentemente do que eu fiz com o Listening, eu não parei para ler com calma sobre todas essas modalidades de questões, e deixar para ter essa surpresa no dia da prova me prejudicou um pouco.

Dicas:

  • Se você tem um inglês básico/intermediário – Após estudar sobre todos os tipos de questões e resolver várias provas, invista em ouvir músicas acompanhando a letra, pequenos textos de notícias, seriados com legenda em inglês;
  • Se você tem um inglês avançado – Após estudar sobre todos os tipos de questões e resolver várias provas, leia notícias em inglês, ou até mesmo um livro inteiro (se houver tempo para isso). Para minha prova, li 1984 de George Orwell. Ao mesmo tempo que era uma leitura tranquila, foi engrandecedora no quesito vocabulário;
  • Para todos – Isso é MUITO IMPORTANTE: Você terá 1 hora não só para ler todos os textos, como também para passar todas as respostas para o cartão. Parece muito, mas não é. Então, ao estudar, marque no cronômetro quanto tempo você leva em cada sessão, incluindo a transcrição das suas respostas. Ressalto ainda que qualquer erro na grafia ou na concordância será contado como resposta errada.


3) Writing: O Writing do General Training possui duas partes – na primeira, será pedido que você escreva uma carta; na segunda, uma redação de, no mínimo, 250 palavras. A carta equivale a 1/3 da sua nota, e o essay a 2/3. Como você terá 1 hora para completar as duas tarefas, é recomendável que você gaste em torno de 20 minutos com a primeira seção, deixando o restante para planejar e escrever a redação mais longa.

A sessão do Writing e do Speaking são as mais subjetivas da prova. Meu professor sempre me falava que, nessas horas, eu precisaria demonstrar o máximo de inglês que eu conseguisse. Não de uma maneira tresloucada e sem sentido. Por mais que você esteja ansioso(a) para jogar todas as suas palavras mais difíceis e todos os tempos verbais mais requintados – você tem que fazer isso fazer sentido, de alguma forma.

Como eu disse, na Task 1 para o General Training, você terá que fazer uma carta. Na minha prova, foi uma carta para o meu chefe para explicar que eu não estava conseguindo conciliar o tempo de trabalho com o de estudos, e sugerir alternativas para remediar a situação.

É recomendado que você treine como organizar o seu texto, lembrando de todas as regras básicas de redação da época do ensino médio. Para escrever essa carta, foque no básico: algo em torno de 4 parágrafos mais ou menos do mesmo tamanho, devidamente organizados e evitando ao máximo erros de grafia.

Task 1 = Introdução + Parágrafo 2 + Parágrafo 3 + Conclusão

O Task 2 demora muito mais tempo. Isso é um fato. Na minha prova, foi trazido um artigo sobre a influência da publicidade de consumo sobre crianças, e eu tinha que escrever um texto que abordasse quão saudável isso era e qual impacto isso poderia ter sobre esse grupo. Achei um tema interessante, mas demanda um pouquinho de tempo para organizar as ideias - afinal de contas, não é aquele tipo de conversa que temos todo dia.

É claro que, se possível, você deve escrever um texto com bons argumentos e bem escrito e que, quando for pedido, você deve demonstrar sua opinião pessoal – mas cá entre nós, o examinador won't give a damn se sua opinião é a melhor do mundo. Você tem que se focar em escrever um texto que responda ao que foi pedido e tenha fluidez, coesão e coerência – e, de preferência, sem erros de grafia e gramática. Muito mais importante que trazer um texto que possa concorrer ao Prêmio Pulitzer é trazer um texto bonitinho e organizado, com vários tempos verbais e palavras que demonstrem o seu bom nível de inglês.

Além disso, você deve lembrar que é necessário escrever mais de 250 palavras. Ou seja, você precisa escrever pelo menos uma redação em casa, contar quantas palavras ela tem, de forma a ter ideia de quão extenso um texto com aquela quantidade de palavras aparenta ser. No dia da minha prova, eu não tive tempo para sair contando se eu havia atingido o mínimo de palavras. No entanto, como eu tinha memorizado qual era a “aparência” de 250 palavras numa folha, uma dada hora eu imaginei que já havia atingido o mínimo pedido.

Quanto ao formato, o ideal é que seu texto tenha entre 4 e 5 parágrafos, com um parágrafo de introdução e um parágrafo de conclusão. Para a introdução, recomendo esse vídeo; para a conclusão, recomendo esse outro vídeo.
Task 2 = Introdução + Parágrafo 2 + Parágrafo 3 / Parágrafo 4 + Conclusão

Dicas:

  • Se você tem um inglês básico/intermediário – Como é uma parte extremamente subjetiva, recomendo que você faça o maior número de exercícios possível. Talvez seja interessante memorizar “fórmulas” para iniciar e concluir textos, dando uma especial atenção ao estudo das linking words. Quanto ao vocabulário, recomendo aliar o estudo do Reading com o do Writing. Existem diversos modelos de Writing na internet, os quais você pode utilizar como base para estudar e escrever os seus próprios textos;
  • Se você tem um inglês avançado – Creio que valha a pena dar uma bela revisada em todos os tempos verbais e quando são utilizados. Por exemplo: uma coisa que eu ainda me embanano vez ou outra é sobre quando utilizar o past perfect e o simple past. Nas semanas anteriores à prova, parei um pouco para rever todas pequenas coisas que achamos que já conhecemos tanto. No mais, vale escrever alguns textos, além de dar aquela olhada nas linking words e nos métodos de conexão de frases.


4) Speaking: A parte do Speaking é dividida em três seções. São elas:


  • 1ª seção: Após uma pequena introdução, o entrevistador pedirá que você se apresente e confirme a sua identidade. Apesar de parecer que se trata de uma conversa informal, nesse momento sua prova já vai ter começado. Você provavelmente será questionado sobre assuntos como casa, família, estudos, hobbies, interesse. Você não deverá ter grandes dificuldades nesse momento da prova;

  • 2ª seção: Essa é a pior parte. O examinador entregará um cartão e pedirá que você desenvolva uma pequena explanação que dure cerca de 2 minutos. É interessante que você não pare de falar nesse meio, pois é meio chato quando você acha que falou o suficiente e o examinador fica com aquela cara de “sim, parou por quê?”. Vários colegas passaram por essa situação e relataram que foi uma sensação desagradável, e relataram que esse nervosismo teve um impacto negativo no desempenho.

  • 3ª seçãoA última parte da prova será apenas uma extensão da fase anterior. Você terá concluído seu minidiscurso sobre o tema determinado, e aí então o examinador fará perguntas relacionadas, geralmente mais abstratas.

Uma coisa interessante que meu professor me passou foi o seguinte: você não precisa necessariamente falar a verdade. Sim, eu estou pedindo para mentir, se necessário for.

Ele me deu o seguinte exemplo: “Fale sobre o festejo mais celebrado da sua cidade”. No meu caso, a resposta mais verdadeira seria o São João. No entanto… como diabos eu vou explicar o que é São João para alguém que não é daqui? Será que vou ter a mesma facilidade e desenvoltura que eu teria de explicar, por dois minutos sem parar, o Natal? Pois é.

Outra orientação que me foi dada é o seguinte: embelish suas respostas. Embelish = Embelezar. Seja lá qual seja a parte da prova, se perguntarem o que você gosta de fazer à noite quando chega do trabalho, não diga apenas “assistir Neflix”. Diga o quanto você “gosta de tomar um longo banho para relaxar, acompanhado de uma taça de vinho chilena, enquanto escolhe no catálogo de filmes o título que mais lhe chamou atenção”. Mesmo. Que seja. Mentira. O que importa mesmo é mostrar ao examinador que você tem domínio da língua.

Na minha prova, a 1ª parte foi o clichê de sempre (oi, como vai, de onde é etc). Na 2ª parte, me foi entregue um cartãozinho que pedia para que eu falasse sobre algum familiar que tinha feito algo do qual eu me orgulhava muito, e por quê. Minha resposta foi sobre minha irmã, que largou a carreira da advocacia para iniciar uma nova vida no Canadá. Ou seja, né: foi uma resposta que me veio muito naturalmente. Nesse aspecto, tive bastante sorte. A 3ª parte foi mais enjoada, pois o examinador me perguntou sobre “do que os pais se orgulham sobre os filhos”, “qual é a importância de sentir orgulho dos filhos”, se “excesso de orgulho é prejudicial” e outras coisas parecidas.

Dicas:

  • Se você tem um inglês básico/intermediário – Tente praticar com alguma companhia, seja um amigo ou um professor. Acredito que o mais importante é que seu inglês fique desenrolado, para que você possa falar com a maior naturalidade possível na hora da prova. Como a língua inglesa obviamente é uma só, todo o seu estudo para o Listening, Reading e Writing terão impacto sobre o seu Speaking;
  • Se você tem um inglês avançado – Além de praticar com alguém para deixar o seu inglês “mais solto”, recomendo que você procure sair da sua zona de conforto de vocabulário. Eu usei o site Memrise para treinar e aprender sinônimos das palavras, pois muitas vezes acabamos repetindo a mesma coisa por falta de opção de outra expressão;
  • Para todos – Isso é MUITO IMPORTANTE: Você precisa aprender qual é a sensação de falar por 2 minutos. Você não terá um relógio para ficar cronometrando na hora, e nada garante que você terá contato visual com o relógio que eventualmente possa ter na sua sala. Cronometre, grave sua própria voz e pratique a sua entonação.


MINHAS NOTAS NO IELTS

Listening: 8.5
Reading: 7.5
Writing: 7.0
Speaking: 7.0
Overall: 7.5

Equivalência no CLB: 9

No site do Governo do Canadá, você pode checar em a equivalência entre suas notas do IELTS e o Canadian Language Benchmarks, que é o índice que contará, de fato, na hora de se candidatar ao Express Entry.

Espero que o meu relato sirva para alguém que ainda não passou por essa fase do processo! No mais, estou por aqui.



3 comentários:

  1. Adorei suas dicas. Vou seguir seus conselhos. É exatamente o relato que precisava ler. Obrigada!

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    1. Depois me conta o que achou e como você fez para passar nessa prova enjoada!

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  2. meu deus do céu, to me vendo nesses gifs.. eu ri mas devia estar chorando kkkk

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